“Por isso, pondo de parte os princípios elementares da doutrina de Cristo, deixemo-nos levar para o que é perfeito, não lançando, de novo, a base do arrependimento de obras mortas e da fé em Deus, o ensino de batismos e da imposição de mãos, da ressurreição dos mortos e do juízo eterno.” | Hebreus 6:1-2
Leitura complementar: Hebreus 6:1-2 | Marcos 1:14-15 | Atos 20:21 | Hebreus 11:1 | Romanos 10:10-17 | Tiago 2:19 | Gênesis 15:6 | Marcos 11:22 | Atos 8:26-40 | Marcos 1:24 | Lucas 18:8b.
Introdução
A postagem de hoje é a segunda da série de mensagens dos Princípios Elementares da Doutrina de Cristo e falaremos sobre a fé em Deus, conforme apresentada pelo escritor de Hebreus ao mencionar estes princípios. Se você ainda não leu a primeira parte, leia também Os Princípios Elementares: O arrependimento de obras mortas.
Mais uma vez, sugiro que você leia e estude estes tópicos fundamentais, porque existem muitas pessoas com anos de comunhão no meio do povo de Deus que ainda não entenderam a profundidade destas coisas. Talvez não seja exatamente o seu caso, mas aprofundar-se neste tema lhe dará ferramentas para examinar a sua caminhada perante Deus e ainda lhe dará autoridade para ajudar todos quantos estiverem ao seu alcance.
A fé, neste sentido, talvez seja o fundamento cristão mais importante de todos, pois sem ela é impossível seguir neste caminho perfeito. E, como veremos, existe a fé verdadeira e a fé falsa. Saber identificar a nossa fé pode determinar o nosso futuro perante Deus e até mesmo nossa salvação naquele grande Dia.
Arrependimento & Fé
“[...] testificando tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo].” | Atos 20:21
Existe uma relação inseparável entre arrependimento e fé, claramente exposta na Palavra de Deus. Confesso que eu só me atentei para essa relação fazendo este estudo, o que é fantástico, visto que conheço este tema há muitos anos. Como vimos no estudo anterior, o arrependimento significa uma mudança radical de mente, julgamento, disposição e direção perante Deus. É converter-se inteiramente ao Senhor. É mudar totalmente a nossa mente e a direção da nossa vida para deixar as obras mortas da carne. Ou seja, o arrependimento é uma firme decisão que remove as obras mortas da nossa vida por inteiro.
Por outro lado, a fé deve ocupar o lugar que outrora estava entregue às obras mortas em nossa vida. Ela preenche o vazio que fica depois que nos arrependemos e, por isso, o arrependimento e a fé devem andar sempre juntos. Saem as obras mortas e entra a fé em Deus.
O arrependimento e a fé formam um mesmo caminho em direção ao trono da graça. Pelo arrependimento, voltamo-nos para Deus, abandonando as obras mortas; pela fé, repousamos em Cristo e em Sua obra. Ambos fazem parte da realidade da conversão produzida pelo Espírito Santo em nossos corações.
O arrependimento é para com Deus, ou seja, em direção a Deus (εἰς). Arrependemo-nos porque sabemos que estamos distantes de Deus e carecemos da Sua graça. Ao mesmo tempo, a fé que é gerada em nós volta-se para o Cristo de Deus (εἰς), o nosso Senhor Jesus.
Essa relação é importante porque não podemos deixar um espaço vazio em nossas vidas. Quando alguém se converte a Deus e se arrepende verdadeiramente, deve conhecer profundamente a fé verdadeira, a fim de que nele se manifeste, verdadeiramente, o testemunho de Cristo.
A fé verdadeira
“Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem.” | Tiago 2:19
Chegamos, por fim, à fé propriamente dita. E aqui tentaremos expor um dos aspectos da fé, que é a fé salvadora. Este é o passo “positivo” da experiência de conversão. Se, num primeiro momento, eu me arrependo e abro mão das obras que anteriormente mantinha no tempo da minha ignorância, agora posso me incendiar com a fé que enche o meu coração.
E aqui precisamos definir claramente o que é esta fé verdadeira à qual me refiro. Veja que um dos textos que cito nesta parte do estudo é um versículo de Tiago que afirma que até mesmo os demônios creem e tremem. E aqui reside uma realidade profunda e tenebrosa.
Não basta à fé o conhecimento frio e distante. Até mesmo os demônios creem. Assim, notamos que existe um tipo de fé que não realiza o trabalho de nos levar ao trono da graça. Se fosse assim, demônios não poderiam crer.
Então, o que é a fé verdadeira? Essa é uma resposta grande demais para colocar apenas com as minhas próprias palavras. Vejamos o que o autor de Hebreus fala sobre isso:
“Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem.” | Hebreus 11:1
Portanto, a fé salvadora envolve receber a verdade de Deus, reconhecê-la como verdade absoluta e repousar pessoalmente em Deus, em Cristo e em Sua obra redentora, abandonando toda outra esperança de salvação.
Na fé salvadora, isso significa especificamente repousar em Deus e na obra de Jesus Cristo, em Sua pessoa e em Sua obra redentora. É pôr nEle toda a nossa confiança e confiar que Deus cuidará da nossa salvação em todas as suas dimensões, desde o momento em que nos arrependemos até o grande Dia da Sua volta.
A fé em Deus
Um dos grandes erros que percebo em nosso tempo não é a falta de vontade dos irmãos em conhecer e se aprofundar na experiência com Deus. Quando falamos da verdadeira fé, o grande problema, a meu ver, é substituir o objeto principal da fé por qualquer outra coisa.
E aqui o nosso irmão Andrew Murray nos auxilia fortemente neste tema, indicando que a força da fé não está em crer em qualquer coisa, ou em crer que receberemos algo, mas em crer em Deus, conforme Jesus nos ensinou:
“Ao que Jesus lhes disse: Tende fé em Deus;” | Marcos 11:22
Com isso, resolvemos um dos maiores erros da fé. Hoje em dia, temos sido enganados a crer em qualquer coisa, mas Jesus mesmo nos ensina a pôr somente em Deus a nossa fé. A força da fé verdadeira não está em quanto eu creio ou no tamanho extraordinário da minha fé, mas em quem se baseia a minha fé.
Podemos passar anos crendo piamente em uma promessa de Deus e, ainda assim, esquecer-nos do Autor da promessa. Podemos passar anos pedindo a Deus muitas coisas e, ainda assim, negligenciar o Autor da nossa fé.
Pode parecer trivial o que digo hoje, mas, se não dirigirmos nossa fé primariamente a Deus, será impossível que essa fé mova montanhas e muito menos que essa fé salvadora nos livre do grande Dia do Senhor. Devemos crer em Deus, crer que Ele existe e que pode nos ouvir e responder, conforme também está escrito:
“De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.” | Hebreus 11:6
Os três elementos da fé salvadora
Existe uma definição que me agrada muito sobre a fé salvadora. É uma formulação clássica da tradição protestante reformada, amplamente sistematizada após a Reforma e coerente com o ensino de irmãos puritanos como John Owen e Thomas Watson. Ela apresenta três elementos da fé de forma simples: conhecimento, assentimento e confiança.
O Conhecimento — notitia
“Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue?” | Romanos 10:14
O primeiro elemento da fé salvadora é o conhecimento. E, por mais lógico que possa parecer, este é um princípio fundamental para entendermos essa fé. Como poderemos crer se não houver o conhecimento prévio ou o anúncio da notícia na qual devemos crer?
Este é um dos motivos pelos quais o evangelho de Cristo é chamado de Boas Novas. Ele é a notícia da salvação em Cristo, revelada a toda carne para salvação daquele que crê.
Assim, precisamos conhecer:
- Quem é Deus?
- Quem é Cristo Jesus?
- Quem eu sou no propósito eterno de Deus?
- O que Jesus realizou na cruz?
- Qual é a promessa de Deus no Evangelho?
Infelizmente, muitas vezes não haverá quem pregue, e eu oro a Deus para que levante os Seus atalaias no meio do povo para anunciar as maravilhas do evangelho do Senhor. Ainda assim, existem homens e mulheres que buscam de todo o coração, apesar da dificuldade.
Estes são como aquele eunuco do livro de Atos, capítulo oito. Veja que Deus enviou um anjo a Filipe e lhe indicou o caminho exato para chegar ao lugar onde ele estava, para que ali lhe fosse anunciado o Cristo. E eu digo e afirmo que Deus há de levantar quantos Filipes forem necessários para anunciar o Cristo a todos quantos têm fome e sede da Sua santa Palavra.
O Assentimento — assensus
O segundo elemento da fé salvadora é o assentimento. O assentimento é o reconhecimento intelectual de uma proposição específica como verdadeira.
- Conhecimento: Eu conheço quem é Cristo e o que Ele realizou para a salvação.
- Assentimento: Eu reconheço que essa mensagem é verdadeira.
Aqui já existe uma crença real, porém ainda não manifestada plenamente como fé salvadora.
O problema do assentimento é que até os demônios creem e tremem, conforme lemos em Tiago e vemos ilustrado também em Marcos:
“Crês, tu, que Deus é um só? Fazes bem. Até os demônios creem e tremem.” | Tiago 2:19
“Que temos nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus!” | Marcos 1:24
Assim, o assentimento é uma parte importante da fé salvadora, mas ainda carece de uma última parte.
A Confiança — fiducia
O terceiro elemento da fé salvadora é a confiança. E é aqui que a fé se torna pessoal, deixando de ser apenas uma verdade reconhecida pela mente para tornar-se confiança e repouso em Cristo.
Seguindo o exemplo anterior:
- Conhecimento: Eu conheço quem é Cristo e o que Ele realizou para a salvação.
- Assentimento: Eu reconheço que essa mensagem é verdadeira.
- Confiança: Eu repouso pessoalmente em Cristo e em Sua obra para a minha salvação.
Trata-se de experimentar aquilo que antes era apenas conceito frio. É, através do Espírito Santo, tocar na revelação de Deus. É interiorizar a fé até o âmago da alma, de modo que nossa confiança deixe de repousar em nós mesmos e passe a repousar em Cristo.
É quando a fé se torna parte da própria vida. Essa é a última parte da fé, quando aquilo que era apenas conhecimento e assentimento se torna, finalmente, confiança verdadeira em Deus.
Conclusão
A fé salvadora é o passo fundamental mais importante de toda a nossa caminhada cristã. E, por ser fundamental, dela depende toda a vida cristã, porque toda a nossa caminhada se baseia em crer na obra redentora do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo.
A minha oração hoje é para que Deus, através do Seu Santo Espírito, gere em nossos corações essa confiança, a fé verdadeira em Deus, para que possamos nos apresentar a Ele em santidade. Se há um só tema ao qual devemos ler, estudar, meditar e nos atentar até a vinda do Filho do Homem, é a fé, porque Ele mesmo disse:
“[...] Contudo, quando vier o Filho do Homem, achará, porventura, fé na terra?” | Lucas 18:8b
Nós temos crido em muitas coisas, pelo engano do inimigo. Mas tudo o que devemos fazer é crer em Deus. Devemos crer em Deus para a nossa completa salvação. Devemos crer em Deus para a nossa santificação. Para que essa fé em nós gerada redunde em louvor, glória e honra na revelação do Filho de Deus. Para que sejamos como Noé, inculpáveis em meio a uma geração corrupta e arredia, que a cada dia se esquece do seu próprio Criador.
Hoje em dia, nós temos tudo: conhecimento, Palavra, testemunho. Mas nos esquecemos do principal, que é a fé verdadeira em Deus. Se não cremos no Deus da terra, como podemos servi-Lo? Como podemos ser filhos de um Deus em quem não cremos?
É disso que se trata essa fé: corrigir o nosso fundamento para que possamos servir verdadeiramente ao Deus Altíssimo, Criador dos céus, da terra e do mar, Criador do homem e de todos os animais que andam sobre a terra. Ele é o nosso Criador, Redentor, Rei e Sacerdote. A Ele seja a glória eternamente. Amém.
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