Introdução ao Evangelho de Mateus

Última revisão: 23 de setembro de 2026.

Introdução ao Evangelho de Mateus

O Evangelho de Mateus ocupa a primeira posição entre os quatro Evangelhos e estabelece uma importante ligação entre as promessas do Antigo Testamento e seu cumprimento em Jesus Cristo.

Desde suas primeiras palavras, Mateus apresenta Jesus como “filho de Davi, filho de Abraão”. Essas duas referências não aparecem por acaso. Abraão nos conduz às promessas feitas por Deus acerca da descendência por meio da qual seriam benditas todas as famílias da terra; Davi nos conduz à promessa do Rei cujo Reino seria estabelecido por Deus.

Ao longo de todo o livro, Mateus demonstra repetidamente que Jesus é o Cristo prometido nas Escrituras, o Filho de Davi e o Rei.

Enquanto Marcos apresenta especialmente Cristo como Servo, Lucas como o Homem perfeito e João como o Filho de Deus, Mateus contempla de maneira particular Jesus Cristo como Rei.

Autor

O Evangelho não identifica diretamente seu autor pelo nome. Entretanto, desde os primeiros séculos da história da Igreja, ele tem sido atribuído a Mateus, também chamado Levi, um dos doze apóstolos do Senhor.

Antes de seguir Jesus, Mateus era publicano, isto é, cobrador de impostos. Seu chamado é registrado de maneira simples:

“Partindo Jesus dali, viu um homem chamado Mateus sentado na coletoria e disse-lhe: Segue-me! Ele se levantou e o seguiu.” | Mateus 9:9

É significativo que alguém anteriormente ligado à arrecadação de impostos para o poder romano tenha sido chamado para seguir Aquele que Mateus apresentaria como o verdadeiro Rei.

Como um dos Doze, Mateus esteve entre aqueles que acompanharam diretamente o ministério terreno do Senhor Jesus e testemunharam Seus ensinos, sinais, morte e ressurreição.

A antiga tradição cristã atribui consistentemente este Evangelho a ele, embora o próprio texto não apresente uma declaração explícita de autoria.

Data

Não é possível determinar com absoluta certeza quando o Evangelho de Mateus foi escrito.

Diversas datas têm sido propostas, geralmente situando sua composição entre as décadas de 50 e 70 d.C., embora também existam propostas posteriores.

Uma composição anterior à destruição de Jerusalém no ano 70 d.C. é perfeitamente possível e tem sido defendida por estudiosos que entendem as palavras de Jesus acerca da destruição do Templo como profecias ainda futuras no momento em que foram registradas.

Outros estudiosos propõem datas posteriores, especialmente nas últimas décadas do primeiro século.

Para fins deste estudo, podemos situar Mateus aproximadamente na segunda metade do primeiro século, sem transformar uma data específica em questão doutrinária.

Contexto e destinatários

Entre os quatro Evangelhos, Mateus possui um caráter fortemente judaico.

O autor pressupõe leitores familiarizados com as Escrituras do Antigo Testamento, as expectativas messiânicas de Israel, a Lei, o Templo e diversos costumes judaicos.

Sua genealogia começa com Abraão, pai da nação, e passa especialmente por Davi, estabelecendo desde o princípio a relação de Jesus com as promessas feitas a Israel.

Outra característica marcante é o uso frequente das Escrituras para demonstrar que acontecimentos da vida do Senhor cumpriam aquilo que havia sido anunciado pelos profetas.

Expressões semelhantes a “para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta” aparecem repetidamente no livro.

Mateus deseja que seus leitores reconheçam que Jesus não surgiu separado da história anterior da revelação de Deus. Ele é o cumprimento das promessas que percorrem as Escrituras.

Ao mesmo tempo, o Evangelho ultrapassa os limites de Israel.

Ele começa com a promessa feita a Abraão e termina com o Cristo ressuscitado enviando Seus discípulos a fazer discípulos de todas as nações.

O Rei de Israel é também o Senhor diante de quem todas as nações são chamadas.

Como Cristo é apresentado

Mateus apresenta de maneira especial Jesus Cristo como Rei.

Essa característica aparece desde o primeiro capítulo.

Jesus é chamado Filho de Davi, inserido na linhagem real e apresentado como Aquele em quem se cumprem as promessas messiânicas feitas por Deus.

Quando os magos chegam a Jerusalém, perguntam:

“Onde está o recém-nascido Rei dos judeus?” | Mateus 2:2a

A questão do Reino permanece presente ao longo de todo o livro.

Mateus utiliza repetidamente a expressão Reino dos Céus, característica especialmente marcante de seu Evangelho. Jesus anuncia o Reino, ensina seus princípios, apresenta seus mistérios por meio de parábolas e fala acerca de sua manifestação futura.

Entretanto, Seu Reino não é apresentado simplesmente como mais um reino político entre as nações.

O Sermão do Monte demonstra o caráter daqueles que pertencem ao Reino. Nele, Jesus não oferece meramente um código externo de comportamento, mas revela uma justiça que alcança o coração do homem.

O Rei não procura apenas súditos exteriormente obedientes. Ele forma um povo cuja vida manifesta o caráter do próprio Reino.

Filho de Abraão e Filho de Davi

A abertura do Evangelho resume duas grandes linhas das promessas do Antigo Testamento:

Abraão e Davi.

Em Abraão encontramos a promessa da bênção que alcançaria as nações.

Em Davi encontramos a promessa do Rei.

Jesus reúne em Si mesmo essas duas linhas.

Ele é a descendência prometida por meio da qual a bênção de Deus alcança os povos e é também o Filho de Davi a quem pertence o Reino.

Por isso, a genealogia que abre Mateus não deve ser vista como uma simples relação de nomes.

Ela resume séculos da história de Israel e demonstra que a vinda de Cristo acontece dentro do propósito que Deus vinha desenvolvendo através das gerações.

Abraão, Davi, o exílio e, finalmente, Cristo aparecem dentro dessa mesma história.

Aquilo que parecia uma longa sucessão de homens, acontecimentos, fracassos e promessas estava conduzindo ao nascimento do Messias.

Características do Evangelho

Uma das principais características de Mateus é sua constante relação com o Antigo Testamento.

Mais do que simplesmente mencionar profecias isoladas, Mateus apresenta acontecimentos da vida de Jesus como o cumprimento da história e das expectativas de Israel.

Outra característica importante é o grande espaço dedicado aos ensinos do Senhor.

O Evangelho possui extensos blocos de ensino, entre eles:

  • o Sermão do Monte;
  • as instruções aos discípulos;
  • as parábolas do Reino;
  • os ensinamentos acerca da vida entre os irmãos;
  • o discurso profético acerca dos acontecimentos futuros.

Isso torna Mateus especialmente importante para compreendermos os princípios do Reino e o ensino do Rei.

Também encontramos forte ênfase no conflito crescente entre Jesus e a liderança religiosa, culminando em Sua rejeição, crucificação e ressurreição.

Há, portanto, um contraste marcante:

O verdadeiro Rei chega ao Seu povo, mas é rejeitado.

Contudo, Sua rejeição não frustra o propósito de Deus.

Depois de ressuscitar, Jesus declara:

“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” | Mateus 28:18

Em seguida, envia Seus discípulos às nações.

O Evangelho que começa apresentando o Rei dos judeus termina apresentando o Senhor de toda a terra.

Representação do Evangelho

Ezequiel e Apocalipse descrevem quatro seres viventes relacionados ao trono de Deus. Em Apocalipse, eles aparecem com aspectos semelhantes a um leão, um novilho, um homem e uma águia.

Ao longo da história cristã, esses quatro seres também foram relacionados tipologicamente aos quatro Evangelhos e às diferentes maneiras pelas quais eles apresentam a pessoa de Cristo.

Neste estudo adotamos essa figura de maneira ilustrativa e tipológica.

Mateus apresenta especialmente Cristo como Rei; Marcos, como Servo; Lucas, como Homem; e João, como o Filho de Deus.

Por essa razão, utilizamos para Mateus a figura do leão.

O leão transmite a ideia de majestade, autoridade e realeza e corresponde bem à maneira como este Evangelho nos apresenta o Senhor.

Jesus é o Filho de Davi, o Messias prometido e o Rei.

Entretanto, Mateus também nos mostra algo profundamente surpreendente acerca desse Rei.

Ele não conquista Seu Reino por meio das armas dos homens.

O Rei é rejeitado, humilhado e crucificado.

A coroa que os homens colocam sobre Sua cabeça é uma coroa de espinhos.

Contudo, depois da cruz vem a ressurreição, e Aquele que fora rejeitado declara:

“Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” | Mateus 28:18

Mateus nos conduz, portanto, da genealogia do Rei até Sua autoridade universal.

O Filho de Davi veio.

O Reino foi anunciado.

O Rei foi rejeitado e crucificado.

Mas Ele ressuscitou e reina.

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