Estudo de Lucas - Os pastores de Belém: Parte 1


Estudo de Lucas - Capítulo 2 
Os pastores de Belém: Parte 1

“Havia, naquela mesma região, pastores que viviam nos campos e guardavam o seu rebanho durante as vigílias da noite. E um anjo (mensageiro) do Senhor desceu onde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor. O anjo, porém, lhes disse: Não temais; eis aqui vos trago boa-nova de grande alegria, que o será para todo o povo: é que hoje vos nasceu, na cidade de Davi, o Salvador (um Redentor), que é Cristo, o Senhor. E isto vos servirá de sinal: encontrareis uma criança envolta em faixas e deitada em manjedoura. E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória (ou: honra) a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem” [Lc 2:8-14].

“pastores que viviam nos campos” [Lc 2:8].
As revelações de Deus no Antigo Testamento em geral eram dadas somente aos eleitos da velha aliança, a saber, aos profetas em si e às vezes também a alguns indivíduos. No entanto, agora são concedidas a um grupo inteiro de pobres pastores que à noite cuidam dos rebanhos no campo. Assim, as primeiras pessoas neste mundo a ouvirem as boas novas da encarnação do Filho de Deus foram estes humildes pastores. Isto não é maravilhoso!

A classe dos pastores de ovelhas era muito desprezada na literatura rabínica. Os fariseus os caracterizavam como ladrões e enganadores, igualados aos publicanos e pecadores. Eles eram considerados plebe que desconhece a lei e não era permitido estar nos tribunais como testemunhas. Eram privados da honra dos direitos civis. Um ditado rabínico dizia: “Nenhuma classe no mundo é tão desprezível quanto a classe dos pastores.” Retornemos aos pastores de Belém. Era noite. Um silêncio profundo e solene pairava sobre os campos adormecidos. Não se ouvia nenhum som. Serenamente brilhavam os astros. Os pastores, em mais um dia aparentemente como outro qualquer, vigiavam o rebanhos.

Visto que o nascimento do Redentor aconteceu durante a noite, os pastores foram os únicos que puderam ouvir a mensagem, enquanto vigiavam os rebanhos. “Os adormecidos não são acordados, mas são chamadas as pessoas de Belém que estão vigilantes naquela noite”.

“E um anjo (mensageiro) do Senhor desceu onde eles estavam, e a glória do Senhor brilhou ao redor deles; e ficaram tomados de grande temor” [Lc 2:9].

Não foi sobre o menino diante de Maria que resplandeceu a luz celestial. Ao redor da manjedoura continuou escura e em sua constituição normal. Contudo lá fora, no campo, na direção do deserto, onde os pastores de ovelhas estavam acampados junto aos rebanhos, um dos mensageiros angelicais cumpriu um alto mandato de anunciação.

Depois que o primeiro Adão havia sido criado conforme a imagem de Deus, ele foi saudado por uma criação perfeita: “muito bom” segundo a avaliação de Deus, e esse Adão na realidade era terreno e imperfeito. O outro Adão, porém, que é o Senhor do céu (1Co. 15.47), para este há somente uma estrebaria e um cocho. No entanto, o céu está repleto daquilo que a terra deixa de lhe oferecer! A terra se cala. Todos dormem na noite profunda. O céu, porém, celebra um grandioso e eterno dia.

Se em algum momento da história da humanidade houve necessidade de que anjos falassem, foi neste momento. O céu todo estava em festa e, de viera o Filho de Deus para chamar a Si o homem. A terra deverá ser novamente unida com o céu pois, o Reino, juntamente com seu Rei estava chegando. O anjo do Senhor, porém, não se apresenta de modo simples e singelo, como o arcanjo Gabriel aparecera a Zacarias lá no templo ou à virgem Maria naquela casa em Nazaré. A glória do Senhor, a shequina, aquela plenitude da luz de Javé atestava Sua presença, aquela coluna de fogo em que Javé (Ex.13:21-22) seguia adiante do povo e habitava entre eles (Êx. 33.14). Portanto, a primeira revelação do Redentor a Israel aconteceu exatamente da maneira que o povo da aliança podia esperar, conforme a sua expectativa. Essa glória da luz do Senhor rodeava não somente o anjo, mas também os pastores. Eles estavam envoltos por esse mar de luminosidade, diante do qual as estrelas empalidecem e a noite se transforma em dia! Essa glória da luz do Senhor era um fulgor das alturas, que nos permite vislumbrar a magnitude e imensurabilidade daquela glória em que os anjos se encontram na face de Deus. Nele o céu se inclina à terra, a fim de anunciar à terra que também ela há de ser novamente consagrada como lugar da honra divina. Essa claridade celestial deve expandir-se sobre a terra, continuando a iluminar de ano para ano, de século para século, de modo transfigurador na igreja, até que Ele venha, a saber, o próprio Senhor, o Redentor do mundo, por intermédio do qual se formam um novo céu e uma nova terra.

Quando a radiante glória da luz do céu rompeu a escuridão da terra, temor e pavor são sempre a primeira reação do ser humano mortal e pecador. O poder Divino de causa ao ser humano temor e pavor até mesmo quando traz uma notícia alegre e salutar (Lc 8.25, Gn. 28.17). O pecado, a imperfeição e impotência do ser humano destacam-se nítida e grotescamente à luz do dia da revelação celestial, provocando pavor, como se o próprio juiz celestial tivesse vindo e quisesse trazer à luz tudo o que ainda resta de pecados ocultos.

O anjo de luz aproxima-se dos assustados pastores como um personagem amistoso, dizendo palavras tão grandiosas e poderosas que ainda hoje, ao soarem diante de um coração carente de salvação, o temor diante da majestade e santidade de Deus forçosamente desaparece. E a claridade e glória de Sua graça refulgem, de sorte que tão somente resta ao homem adorá-lo. 

Comentários