Estudo de Lucas - O nascimento de João Batista


Estudo de Lucas - Capítulo 1
O Nascimento de João Batista

“A Isabel cumpriu-se o tempo de dar à luz, e teve um filho. Ouviram os seus vizinhos e parentes que o Senhor usara de grande misericórdia para com ela e participaram do seu regozijo” [Lc 1:57].

Lucas nos fornece agora uma linda imagem da vida do povo israelita. Um após o outro, chegam os vizinhos e parentes; aqueles primeiro, porque viviam nas redondezas. A mãe feliz é o centro da cena. Um após o outro se achegam e a cumprimentam por causa da grande graça que lhe foi concedida, alegrando-se com ela. De fato, esse feliz nascimento se reveste de copiosa misericórdia Divina. Filhos são dádivas do Senhor, e o fruto do ventre é um presente (Sl. 127). Como não se alegrar com isso? Feliz a criança que é saudada com tão sagrada alegria ao nascer.

“Sucedeu que, no oitavo dia, foram circuncidar o menino e queriam dar-lhe o nome de seu pai, Zacarias. De modo nenhum! Respondeu sua mãe. Pelo contrário, ele deve ser chamado João” [Lc 1:59-60].

Através da circuncisão a criança era incorporada ao povo da aliança do Antigo Testamento. Levando em consideração que o escritor deste Evangelho era gentil, ele fez questão de observar essa prática que acontecia no oitavo dia após o parto. À circuncisão estava também associada à definição do nome. Via de regra, o filho recebia um nome de acordo com o nome do pai ou de um de seus antepassados.

Aqui, no entanto, essa regra é conscientemente rompida. O nome da criança não seria Zacarias, mas João. O pequenino João não devia apenas dar continuidade à família de Zacarias. Com ele algo realmente novo teria início. Mediante aos acontecimentos antes de seu nascimento ficou patente diante de todo Israel que ele era um homem enviado por Deus, que recebera tanto o nome quanto dons e vocação não da casa paterna e dentre seus amigos, mas de Deus.

Ambos os nomes, Zacarias e João, indicam de modo apropriado à atitude do coração. Zacarias, que significa “Deus lembra” remete nos moldes do Antigo Testamento para o tempo da promessa. O nome João proclama: “Deus é misericordioso”. Chegaram a "graça" e a "verdade", ainda que apenas no raiar da manhã.

“Disseram-lhe: Ninguém há na tua parentela que tenha este nome. E perguntaram, por acenos, ao pai do menino que nome queria que lhe dessem. Então, pedindo ele uma tabuinha, escreveu (as palavras): João é o seu nome. E todos se admiraram. Imediatamente, a boca se lhe abriu, e, desimpedida a língua, falava louvando a Deus. Sucedeu que todos os seus vizinhos ficaram possuídos de temor, e por toda a região montanhosa da Judeia foram divulgadas estas coisas. Todos os que as ouviram guardavam-nas no coração, dizendo: Que virá a ser, pois, este menino? E a mão do Senhor estava com ele” [Lc 1:61-66].

Com certeza ninguém será capaz de descrever o que Zacarias suportou e sofreu durante nove meses de plena mudez! Seu coração pode ter transbordado quando Isabel estava na expectativa de se tornar mãe, pelo que ele obtinha a plena certeza daquilo que lhe fora dito. Pode ter tido vontade de proclamar para todos os lados o que o Senhor lhe havia feito. Contudo, ele não conseguia falar, nem sequer podia derramar o coração perante Isabel! Talvez o tentasse algumas vezes com a tabuinha – mas isso era apenas um recurso precário! O coração devia quase lhe explodir de aflição, de ser obrigado a cerrar dentro de si tudo o que o movia tão intensamente! Ele é abençoado e, não obstante, disciplinado, precisamente por meio daquilo com que é abençoado. A grande alegria vem a ser suplício para ele, e o filho que lhe trouxe alegria torna-se pregador de arrependimento (para ele) mesmo antes de nascer. Nove longos meses haviam, pois, transcorrido. Ele deve ter aguardado ansiosamente o dia do nascimento. Agora a criança nasceu – porém a língua ainda não foi solta! Com quanta alegria ele teria enaltecido a Deus agora. Entretanto, não consegue fazê-lo! Essa situação representou uma última grave provação de fé para Zacarias! Afinal, o anjo não dissera que ele permaneceria mudo até o dia em que isso haveria de acontecer? Afinal, isso o quê? “Isso” não significa: até o dia do nascimento do filho? Mas, apesar disso, a língua não se soltou. O dia do nascimento passou, mas Zacarias continua mudo.

Chega o dia da circuncisão, o que acontece somente no oitavo dia após o parto mas Zacarias não consegue participar das alegres conversas. Quantas lutas estariam ocorrendo no íntimo daquele homem! Além disso, infelizmente a mudez ainda era persistente, sua fé se apega à promessa, e a determinação com que ele escreve: “João é seu nome” constitui a última vitória de sua confiança. Agora ficou evidente que o Zacarias incrédulo acreditou. “Imediatamente, a boca se lhe abriu, e, desimpedida a língua, falava louvando a Deus.” Zacarias foi aprovado em seu derradeiro teste de fé! Agora finalmente também se quebrou a limitação da língua e do coração! A admiração dos presentes se intensifica em temor. O poderoso braço de Deus lhe fora fiel.

Deve-se supor que o casal, que havia se calado por tanto tempo, agora revela aos hóspedes da casa todos os seus segredos. Podemos imaginar o impacto extraordinário que o milagre do mudo que volta a falar, louvar e enaltecer a Deus exerce sobre os hóspedes. O estranhamento em relação ao nome João silencia de súbito. Sim, até o significado de seu nome é sentido profundamente também nos corações dos presentes.

De modo tão benigno Deus reverteu o castigo que enviara a Zacarias por causa de sua incredulidade. Ele teve de ajudar a revelar a mão do Senhor e manifestar a graça de Deus a todo o povo. O que sucedeu na casa dessa família sacerdotal com certeza contribuiu consideravelmente para intensificar ainda mais a expectativa pelo Messias no povo. “Todos os que as ouviram guardavam-nas no coração, dizendo: "Que virá a ser, pois, este menino?" (vs.66).

A notícia impactou-os. Não podiam desvencilhar-se dela, tinham de movê-la constantemente no coração. Afinal, no nascimento de homens como Moisés, Sansão (Juízes 13), Samuel haviam acontecido fatos semelhantes. Esperanças há muito definhadas tornavam a brotar nos corações. E a alegria permaneceu porque a mão do Senhor estava com aquela criança, e ela cresceu e se tornou forte no Espírito (v. 80), precisamente no Espírito Santo, que já o preenchia desde o ventre materno, constituindo a força do espírito dele.

Portanto, o mensageiro foi precedido pela mensagem de que Deus tinha grandes objetivos com ele. Foi-lhe aberto o acesso ao coração do povo, para que com isso preparar o caminho do Senhor. Esse João, enviado de Deus, um homem, cujas escrituras não lhe atribuíram nenhum milagre, mas foi introduzido no mundo de tal maneira maravilhosa, que andou diante dos olhos do povo como um grande milagre!

“O menino crescia e se fortalecia em espírito. E viveu nos desertos até ao dia em que havia de manifestar-se a Israel” [Lc 1:80].

A palavra “deserto” não designa exatamente o deserto como nós o conhecemos, cheio de areia e sol escaldante, mas um lugar ermo, isolado, sem população, sem a presença de nenhuma cultura, seja religiosa, política ou social. Deve ser o chamado “deserto de Judá”, aquela região abandonada na margem ocidental do mar Morto. No deserto, no silêncio, João podia distanciar-se dos olhares do povo, cuja atenção havia despertado.

Importante é a circunstância de que João não buscou nem encontrou seu preparo junto a escribas, fariseus nem em grandes eruditos. Paulo, o erudito, também retirou-se por três anos à Arábia, ao silêncio. No caso de João também aprendemos que a solidão é uma bênção. Quanto mais os olhos do mundo se voltam para nós, tanto mais carecemos desse silêncio. Do quartinho de oração podemos sair confiantes para o espaço público. O estudo pessoal da palavra e a oração nos preparam e fortalecem para a luta diária. Então o Espírito Santo torna-se para nós mestre, o melhor instrutor que qualquer ser humano consegue ser. O que se aprende nessas circunstâncias não pode ser abalado por nenhum diabo.

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