Estudo de Lucas - Anunciado o nascimento de Jesus


Estudo de Lucas - Capítulo 1
Anunciado o nascimento de Jesus

“No sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado, da parte de Deus, para uma cidade da Galileia  chamada Nazaré” [Lc 1:26].

De Jerusalém e do templo o relato nos transporta a uma pequena cidade provincial, à casa de uma moça desconhecida chamada Maria. Do contexto sacerdotal chegamos à vida privada de uma pequena israelita comum. A referência de tempo no sexto mês corresponde ao tempo de gravidez de Isabel, mãe de João Batista. Chegou o momento em que Isabel pôde sair de sua reclusão e ser reconhecida como aquilo que ela era. Deus esperou por esse momento a fim de acrescentar a essa primeira ação a promessa de uma outra ainda maior.

O nome Galileia designa a borda setentrional da Palestina, que era uma região sem muita importância e Nazaré uma cidade totalmente desprezada. Jesus de Nazaré é um título que aparece dezessete vezes no Novo Testamento. Esta era uma pequenina cidade sem muros que fica a sudeste da Galileia  A sua população era menos de 1000 pessoas, aliás, alguns historiadores chegam a estimar sua população no primeiro séculos entre duzentos e quatrocentos habitantes. Era uma cidade tão obscura, que não fora mencionada no Velho Testamento. Sua principal fonte econômica era a agricultura.

Nazaré consistia de um aglomerado de casinhas baixas, na maior parte encravadas nas encostas dos morros, para dentro dos quais ficavam os cômodos interiores. Casas rústicas, mal ventiladas, escuras, porém frescas no verão e bem protegidas no inverno Era uma vila completamente judaica que parece ter sido fundada durante um período pouco antes do nascimento de Jesus.

Era rodeada de olivais e vinhedos, que desciam das encostas formando degraus. Pouso obrigatório de caravanas que vinham de Damasco ou de Jerusalém e, por isso mesmo, lugar mal frequentado e de má reputação. Possuía vários poços de água e albergues para caravaneiros e floresciam os fazedores tendas nos terreiros, carpinteiros e outros artífices que trabalhavam para atender às necessidades das caravanas.

Nazaré ficava bem no centro da Galileia que, por sua vez, era região desprezada pelos judeus, por ser habitada por homens rústicos, pouco fiéis às leis e aos ritos judaicos. Até a fala dos galileus era diferente e tida como bárbara. Tão diferente que Simão Pedro, no pátio de Hanan, à beira do fogo, naquela noite fria e triste em que o Mestre estava sendo julgado, tentou negar ser seu discípulo, quando interpelado por uma mulher do serviço da casa, mas foi por ela imediatamente desmascarado quando ela disse: "Tu és também dessa gente, pois te reconheço pela fala", ou seja, tinha o mesmo sotaque.

Assim, por vários motivos esta terra era terrivelmente desprezada pelos judeus. E, no entanto, Agora o anjo de Deus se dirige para lá, a fim de anunciar que o Filho unigênito de Deus iria ser gerado no ventre de uma simples moça daquela cidade. O Senhor Jesus, alvo de todos os prenúncios proféticos seria conhecido como um nazareno. Portanto, esta pequena cidade, que jamais fora mencionado no Antigo testamento, seria o local onde viveria o Senhor Jesus desde sua mais tenra idade.

A uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José” [Lc 1:27].

O anjo não é enviado ao palácio de uma pessoa grande e rica, mas à humilde morada de uma pobre virgem. Quem era esta moça escolhida desde a eternidade para ser a mãe de nosso Senhor, cuja semente esmagaria a cabeça da serpente? É estranho como a Escritura silencia a história desta moça. Tudo o que sabemos a respeito dela, de sua condição social, seu caráter, sua vida e suas experiências restringem-se a poucos traços relatados para glorificar seu filho. Esses poucos traços, porém, são suficientemente ricos para que sintamos a plenitude com que o Senhor agraciou essa Sua serva. Talvez explicações mais amplas tivessem resultado em excessiva honra para Maria. A Escritura, porém, promove tão somente a honra de Deus. A adoração de Maria praticada pela Igreja Católica Romana não tem fundamento na Escritura. Maria era a noiva de José. O Senhor havia providenciado a união dos dois porque Seu propósito era conceder a virgem um protetor e vigia que haveria de defendê-la, cuidar de Seu Filho e assegurar à criança o direito à cidadania em Israel.

... da casa de Davi... ” Será que as palavras da casa de Davi se referem a José, a José e Maria ou somente a Maria? As palavras referem-se unicamente a Maria. Dessa forma visa-se assinalar que, segundo a exposição de Lucas, Maria era da descendência de Davi (cf. v. 32 e 69). A origem davídica de José é atestada em Lucas 2.4, bem como na genealogia em Mateus e por intermédio do título “filho de Davi”, atribuído publicamente ao Senhor Jesus.

E, entrando o anjo onde ela estava, disse: Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo!” [Lc 1:28].

A palavra grega para “favorecida” designa mais do que uma pessoa agraciada por meios naturais. A saudação “Alegra-te, muito favorecida, o Senhor [é] contigo!” também é particularmente marcante e relevante pelo fato de que nem sequer fazia parte dos bons costumes saudar uma mulher. Isso igualmente fica claro numa palavra de oração judaica: “Agradeço-te, Deus, que não me criaste como gentio, como leproso ou como mulher.” Com a saudação da graça abriu-se o Novo Testamento, uma nova era foi inaugurada: a era da graça.

Ela, porém... perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação" [Lc 1:29].

O susto da virgem constitui uma prova de que ela não era sem pecado, como considera a Igreja Católica Romana, adorando-a por isso. Se não tivesse pecado, ela permaneceria impassível, sem a menor consternação diante do anjo. É sempre um indício de pecaminosidade que a aproximação do mundo invisível suscite temor nas pessoas (Is 6.5; Lc 5.8). – No entanto, em Jesus não constatamos o menor susto quando anjos se achegam a ele (veja as histórias da tentação, da transfiguração, do Getsêmani).

“Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem chamarás pelo nome de Jesus” [Lc 1:31].

As formulações utilizadas pelo anjo lembram Is 7-14: “A virgem conceberá e dará à luz um filho e lhe chamará Emanuel.” Jesus significa: “Deus é salvação ou redenção.”

“Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai... Ele reinará para sempre sobre à casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim" [Lc 1:32-33].

Portanto, Ele será chamado “Filho do Altíssimo”, Filho de Deus, do Criador e Mantenedor do céu e da Terra e de todo o universo. Se aquela mocinha, chamada Maria, tivesse compreendido integralmente o significado pleno dessa palavra, a infinita grandeza daquela criança que ela deveria carregar em seu ventre e nutrir com seu sangue, de modo algum o teria podido suportar! Não houve ninguém que por natureza e essência fosse simultaneamente Filho do Altíssimo, Filho eterno do Pai eterno, resplendor de sua glória e réplica de sua natureza, e cuja obra por isso é tão importante.

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