Estudo de Lucas - Anunciado o nascimento de João


Estudo de Lucas - Capítulo 1
Anunciado o nascimento de João Batista

“Nos dias de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno (sacerdotal) de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão e se chamava Isabel” [Lc 1:5].

A expressão o turno (sacerdotal) de Abias baseia-se na subdivisão dos sacerdotes em 24 ordens que remontam a Davi (1Cr 24.3,10). Abias era 8ª divisão (1Cr 24:10). Considerando que Isabel era oriunda “dentre as filhas de Arão”, conclui-se que João Batista era descendente de uma família puramente sacerdotal.

“Ambos eram justos diante de Deus, vivendo irrepreensivelmente em todos os preceitos e mandamentos do Senhor” [Lc 1:6].

A expressão "justos" refere-se ao fato de que Zacarias e Isabel eram cabalmente irrepreensíveis aos olhos de Deus segundo os mandamentos do Antigo Testamento. Deus deixava valer diante de Si esta justiça como reta diante Dele. O termo "irrepreensível" corresponde à palavra “perfeito” em Genesis 17.1. Quem deseja ser digno do serviço de Deus precisa ser obediente a Ele e vincular seu coração incondicional e irrestritamente a seus mandamentos. Ser justo não quer dizer que não pecam, mas que ambos andavam e viviam na presença de Deus.

“E não tinham filhos, porque Isabel era estéril, sendo eles avançados em dias” [Lc 1:7].

Não ter filhos era um grande infortúnio para qualquer casal, especialmente para um casal em idade avançada. Esta condição gerava extremo sofrimento e era um sinal do desfavor Divino, da destituição da bênção prometida em Gêneses 1:28 e vergonha em meio a sociedade. Especificamente a infertilidade e o sofrimento daquele casal contribuíram, de modo essencial, para que eles obtivemssem a revelação Divina. Em calada solidão eles tiveram a oportunidade de aprender e esperar no Senhor e a crer piamente que Deus se lembra de seu juramento. Esta situação, no entanto, proveio do arranjo soberano do Senhor e proporcionou a Deus uma oportunidade de introduzir o Seu Evangelho, não pela força natural do homem, mas pela Sua atuação Divina.

“coube-lhe por sorte segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso” [Lc 1:8-9].

Por sorteio coube-lhe a tarefa de acender o incenso. Para isto, ele entrou no chamado recinto santo, no qual se encontrava além do candelabro de ouro e da mesa de pães da proposição, também o altar de incenso. A expressão santuário do Senhor destaca a santidade do templo (Êx 30.8). Devido ao grande número de sacerdotes, a maioria jamais seria escolhida para esta tarefa, e não era permitido servir nesse posto duas vezes. Zacarias, sem dúvida, considerou isso como o momento supremo de sua vida sacerdotal. Ele permaneceu em Jerusalém por uma semana, prestando o serviço no templo.

"E, durante esse tempo, toda a multidão do povo permanecia da parte de fora, orando" [Lc 1:10].

Depois de Zacarias ter derramado o incenso sobre as brasas incandescentes do altar, ele se prostrara, conforme prescrito, para a adoração. Nessa hora da queima do incenso, em todo o país os rostos do povo se voltavam para Jerusalém, e as pessoas oravam. No instante em que o sacerdote se posta diante de Deus, ele resume, como representante do povo, as orações de todos, trazendo-as à face de Deus. Nessa hora ele também pode expressar sua intenção mais íntima e sagrada diante de Deus. A subida do incenso é uma imagem da ascensão da oração agradável a Deus. [Sl 141.2 e Ap 5.8; 8.3]

"Disse-lhe, porém, o anjo: Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho, a quem darás o nome de João. Em ti haverá prazer e alegria, e muitos se regozijarão com o seu nascimento" [Lc 1:13-14].

Primeiramente o anjo tranquiliza Zacarias: “não temas”. Ele trazia uma mensagem de misericórdia, não de juízo: Ele anuncia um filho, o descendente há muito tempo almejado. A expressão tua oração pode muito bem ter o sentido de “tua oração constante”.O nome João se origina de Yôḥānān (2Rs. 25.23; 1Cr 12.4,12) e significa o mesmo que Deus Mostrou Favor ou Deus Foi Clemente. Ele ocorre diversas vezes no Antigo Testamento.Em seguida lemos: “Porque a tua oração foi ouvida”. Esso verso mostra que Zacarias orava para que sua esposa gerasse um filho. Deus não esquecera a oração do idoso casal. A verdade é que nossa oração libera o operar de Deus em nossas vidas, o que implica que muitas vezes o Senhor espera a nossa força natural ser finalizada para que a Sua operação em nós aconteça.

“Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte e será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno” [Lc 1:15].

Nesse versículo lemos: “não beberá vinho nem bebida forte”. Isso era um elemento chave no voto de nazireu (Nm. 6:1-21). Normalmente esse voto era temporário, mas Sansão (Jz 16:16) e Samuel (1Sm 1:11), foram sujeitos a este voto desde a infância. No Antigo Testamente os da linhagem sacerdotal foram designados para servir ao Senhor. No entanto, através do nazireado, que era uma consagração voluntária, qualquer um poderia ser apto a servir ao Senhor. Assim, ser nazireu não era uma questão de ser designado, ordenado ou até mesmo escolhido pelo Senhor, mas de uma escolha pessoal de se consagrar a Deus voluntariamente. No caso de João, além de pertencer à linhagem sacerdotal, o que lhe conferia o direito natural de servir ao Senhor, ele também era nazireu, ou seja, ele se entregava voluntariamente a Deus em consagração. Esse versículo também diz que ele seria "cheio do Espírito Santo, já do ventre materno.” A preparação do caminho para a vinda do Salvador Jesus requeria que o Seu precursor fosse cheio do Espírito Santo desde o ventre materno, para que pudesse apartar o povo de Deus, separando-o de todas as coisas alheias a ele e tornando-o santo para Ele para a realização de Seu propósito.

“Então, perguntou Zacarias ao anjo: Como saberei isto? Pois eu sou velho, e minha mulher, avançada em dias” [Lc 1:18].

A solicitação de um sinal é tratada aqui como uma transgressão que merece punição. Não obstante, Abraão (Gn.15.8), Gideão (Jz.6.36s, 39 três vezes) e Ezequias (2Rs. 20.8) externaram um pedido semelhante, sem que isso lhes fosse imputado por pecado. Porque, pois, não é correto no presente caso o que em outros episódios foi aceito? Ora, Zacarias era um sacerdote e bem mais amadurecido do que todos eles. Ademais, o próprio local (no santo dos santos), em que ele recebia essa mensagem, deveria livrá-lo de qualquer dúvida.

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